sexta-feira, 17 de junho de 2011

CAÇADA – Chico Buarque

Não conheço seu nome ou paradeiro
Adivinho seu rastro e cheiro
Vou armado de dentes e coragem
Vou morder sua carne selvagem

Varo a noite sem cochilar, aflito
Amanheço imitando o seu grito
Me aproximo rondando a sua toca
E ao me ver você me provoca


Você canta a sua agonia louca
Água me borbulha na boca
Minha presa rugindo sua raça
Pernas se debatendo e o seu fervor


Hoje é o dia da graça,
hoje é o dia da caça e do caçador


Eu me espicho no espaço feito um gato
Pra pegar você, bicho do mato
Saciar a sua avidez mestiça
Que ao me ver se encolhe e me atiça


E num mesmo impulso me expulsa e abraça
Nossas peles grudando de suor


Hoje é o dia da graça,
hoje é o dia da caça e do caçador


De tocaia fico a espreitar a fera
Logo dou-lhe o bote certeiro
Já conheço seu dorso de gazela
Cavalo brabo montado em pelo


Dominante, não se desembaraça
Ofegante, é dona do seu senhor


Hoje é o dia da graça,
hoje é o dia da caça e do caçador.

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